Ecografia Ginecológica POCUS — Guia de Referência
🎛️Duas vias de abordagem

A ecografia pélvica responde a perguntas focadas: útero e endométrio normais? ovários e anexos? massa ou quisto? líquido livre? DIU bem posicionado? Combina-se com o exame ginecológico e a clínica.

🫧 Transabdominal (TA)

Sonda convexa, bexiga cheia como janela acústica. Varrimentos sagital e transversal sobre a sínfise púbica. Boa visão global; menor resolução.

🔎 Transvaginal (TV)

Sonda endocavitária, bexiga vazia, decúbito de litotomia. Melhor resolução do útero, endométrio e ovários. Requer consentimento e acompanhante.

Consentimento
Explicar o exame, obter consentimento e assegurar a presença de acompanhante/chaperone na ecografia TV. Cobrir a sonda com preservativo/luva estéril e gel; desinfetar após o exame conforme protocolo.
Marcador (TV)
Indicador às 12 h. Sagital: marcador para cima; transversal: rodar 90° (marcador para a direita da doente).
Orientação no ecrã
Por convenção, a esquerda do ecrã corresponde ao cefálico (corte longitudinal/sagital) ou à direita da doente (corte transversal); o topo é o campo próximo (anterior). É esta a orientação usada nos esquemas seguintes.
Se não encontra o útero
  • Deslizar a sonda junto à sínfise e inclinar inferiormente (útero pode estar por baixo);
  • Pressão firme para afastar gás intestinal;
  • Colocar a sonda sob o pannus; aumentar a profundidade;
  • Encher mais a bexiga (TA) ou passar a TV.
🗺️Anatomia pélvica — corte sagital
↑ campo próximo · anterior (sonda TA — bexiga = janela) bexiga útero fundo endométrio colo / vagina fundo de saco de Douglas ◄ cefálico caudal ►
Orientação do ecrã (sonda transabdominal, marcador cefálico): esquerda = cefálico, direita = caudal, topo = anterior. A bexiga (anterior e caudal) é a janela acústica; o útero antevertido tem o fundo cefálico (à esquerda) e o colo caudal (à direita); o fundo de saco de Douglas, posterior, é o ponto mais declive.
↔️Orientação uterina — variantes normais
◄ cefálico caudal ► bexiga fundo ANTEVERTIDO ◄ cefálico caudal ► bexiga fundo (posterior) RETROVERTIDO
Orientação do ecrã: esquerda = cefálico, direita = caudal. No antevertido o fundo dirige-se para anterior (para a bexiga); no retrovertido o fundo dirige-se para posterior (reto/dorso) — ambos variantes normais. O retrovertido é mais difícil de datar e medir por via TA.
Dimensões úteis
Útero (nulípara) ~7–8 × 4–5 × 3–4 cm; aumenta com a paridade. Medir comprimento no plano sagital (fundo→colo), e AP e transverso.
Ovários
Pré-menopausa ~3 × 2 × 1,5 cm (volume até ~10 mL); pós-menopausa < 2 × 1,5 × 1 cm (volume < ~8 mL). Situam-se lateral/posterior ao útero, junto aos vasos ilíacos.
📏Como medir o endométrio

Medir a espessura bicamada (as duas camadas endometriais) no plano sagital médio, no ponto mais espesso, perpendicular à linha média, excluindo líquido intracavitário. A via TV é a de eleição.

miométrio endométrio (bicamada) espessura
Medição da espessura endometrial bicamada no plano sagital, no ponto mais espesso. Se houver líquido na cavidade, medir cada camada separadamente e somar (excluindo o líquido).
🔄Endométrio ao longo do ciclo (pré-menopausa)
FaseAspeto ecográficoEspessura típica
MenstrualFino, irregular, hiperecóico com sangue/coágulos1–4 mm
ProliferativaHipoecóico, homogéneo4–8 mm
Periovulatória"Tripla linha" (3 linhas: 2 camadas basais ecogénicas + funcional hipoecóica)6–10 mm
SecretoraEspesso, homogéneo, hiperecóico7–14 mm (até ~16)
proliferativa tripla linha secretora
Padrões: proliferativa (fino, hipoecóico) → periovulatória (tripla linha) → secretora (espesso, ecogénico).
🩸Hemorragia pós-menopausa

A hemorragia pós-menopausa exige exclusão de carcinoma do endométrio (a neoplasia ginecológica mais frequente). A ecografia TV é o exame de primeira linha, pelo seu elevado valor preditivo negativo.

SituaçãoEndométrioConduta orientativa
Pós-menopausa com hemorragia≤ 4 mmExclui cancro com elevado VPN (ACR/ACOG). Vigilância; reavaliar se hemorragia recorrente/persistente.
Pós-menopausa com hemorragia> 4 mm ou não medível/heterogéneoReferenciar para biópsia endometrial / histeroscopia.
Sob THS (com hemorragia)Limiar ~5 mm (variável)Individualizar; referenciar se acima do limiar ou irregular.
Pós-menopausa sem hemorragiaAchado incidental espessoSem limiar automático; ponderar caso a caso com fatores de risco (obesidade, SOP, HTA, diabetes, tamoxifeno).

⚠️ Cuidados

Um endométrio não medível de forma fiável (miomas, pólipos, útero axial, má janela) na presença de hemorragia não é tranquilizador — referenciar. A ecografia POCUS orienta, mas a decisão de biópsia é da consulta de ginecologia.

🥚Ovário normal e folículos

O ovário identifica-se pela textura com folículos (estrutura em "chocolate com amêndoas"), lateral/posterior ao útero, junto aos vasos ilíacos. Melhor avaliado por via TV.

folículos anecóicos (< 3 cm) corpo lúteo "ring of fire" (Doppler periférico)
Esquerda: ovário com múltiplos folículos anecóicos. Direita: corpo lúteo — parede espessa com vascularização periférica intensa ("anel de fogo") a Doppler cor; um achado fisiológico frequente.
Folículo
Anecóico, parede fina, < 3 cm. O folículo dominante pode atingir ~2–2,5 cm antes da ovulação.
Volume ovárico
Fórmula do elipsoide: 0,523 × comprimento × largura × altura (cm). Ver calculadora.
Aspeto poliquístico
≥ 12–20 folículos de 2–9 mm em coroa periférica e/ou volume > 10 mL. Achado morfológico — não é, por si só, diagnóstico de SOP (que é clínico/laboratorial).
🫧Tipos de quisto — reconhecer padrões benignos
simples hemorrágico (rede) endometrioma (vidro fosco) dermoide (nódulo/traços)
Padrões clássicos benignos: simples (anecóico, parede fina, reforço posterior); hemorrágico (rede fina "renda", coágulo retrátil); endometrioma (ecos homogéneos de baixo nível, "vidro fosco"); dermoide/teratoma (nódulo hiperecóico com sombra, linhas "ponto-traço").
📊Quistos simples — limiares (SRU 2019)
ReportarSeguimento
Pré-menopausa> 3 cm> 5–7 cm
Pós-menopausa> 1 cm> 3–5 cm

Risco baixo

Quisto simples < 10 cm tem risco de malignidade < 1%. Quistos funcionais (< 3 cm) são fisiológicos na pré-menopausa.

Sinais suspeitos → referenciar

Componente sólido com fluxo, septos espessos (> 3 mm), projeções papilares, multilocular, ascite, crescimento. Considerar O-RADS/IOTA.

💧Líquido livre no fundo de saco de Douglas

O fundo de saco retouterino (Douglas) é o ponto mais declive da pelve. Pesquisar líquido no plano sagital, posterior ao útero.

Fisiológico

Pequena lâmina anecóica, sobretudo peri-ovulatória ou após rotura de folículo — habitualmente assintomática e autolimitada.

Preocupante

Volume moderado/grande, líquido com ecos (sangue), dor intensa e/ou instabilidade → suspeitar de quisto roto com hemoperitoneu ou ectópica rota.

🌀Torção ovárica — emergência cirúrgica
ovário aumentado, edemaciado folículos periféricos ("colar de pérolas") pedículo em redemoinho
Ovário aumentado e edemaciado, folículos empurrados para a periferia, pedículo vascular torcido ("whirlpool"), fluxo Doppler reduzido/ausente. Risco maior com massas ≥ 5 cm.

🚩 O Doppler pode enganar

A presença de fluxo não exclui torção (dupla irrigação; torção intermitente). É um diagnóstico clínico + ecográfico: perante dor súbita intensa, náuseas e ovário aumentado, referenciar de imediato para ginecologia/cirurgia.

⚕️Outras causas de dor pélvica
EntidadeAchados ecográficos
Quisto rotoQuisto colapsado/irregular + líquido livre; hemorrágico se ecos no líquido. Geralmente autolimitado; vigiar se hemoperitoneu.
Doença inflamatória pélvica (DIP)Líquido no Douglas, espessamento/hidrossalpinge (estrutura tubular com pregas — "roda dentada"), dor à mobilização com a sonda.
Abcesso tubo-ováricoMassa anexial complexa, multiloculada, com ecos internos e paredes espessas. Referenciação urgente.
Gravidez ectópicaβ-hCG positiva sem GIU; massa anexial, anel tubário, líquido livre. Ver a ferramenta de ecografia obstétrica deste projeto.

Regra de ouro

Em qualquer mulher em idade fértil com dor pélvica, fazer teste de gravidez. Uma β-hCG positiva sem gravidez intrauterina visível obriga a excluir ectópica.

➰DIU — verificação da posição

A ecografia confirma a retenção e o posicionamento do DIU (cobre ou hormonal), idealmente no fundo, dentro da cavidade endometrial. O dispositivo aparece como uma estrutura linear hiperecóica com sombra.

◄ cefálico (fundo) caudal (colo) ► miométrio braços (T) no fundo haste
Plano sagital (fundo cefálico à esquerda, colo caudal à direita): "T" hiperecóico com a haste na cavidade e os braços junto ao fundo. Varrer em sagital (ponto → linha → ponto) e em transversal (linha dos braços) para confirmar a forma em T.

Malposição

DIU baixo (segmento inferior/colo), rodado, encravado no miométrio ou perfuração. Aumenta o risco de falência contracetiva e sintomas.

DIU "não visível"

Não assumir expulsão se não se vê na cavidade. Procurar fios ao espéculo e confirmar com Rx abdómen/pélvis (perfuração/migração).

Armadilha

Restos ovulares calcificados e a linha endometrial ecogénica podem imitar o DIU. Procurar a forma linear nítida em T em ambos os planos.

⬤Miomas (leiomiomas)

Massas miometriais benignas, muito frequentes. Tipicamente hipoecóicas, bem definidas, com textura em espiral; podem gerar sombra e calcificar. Classificam-se pela localização.

◄ cefálico (fundo) caudal (colo) ► submucoso intramural subseroso
Plano sagital (fundo cefálico à esquerda). Localizações: submucoso (distorce a cavidade, causa hemorragia), intramural (na parede) e subseroso (projeta-se para fora). Registar número, dimensão e localização.

Relevância clínica

Miomas submucosos associam-se a hemorragia uterina anormal e infertilidade; volumosos causam sintomas compressivos. Um útero muito irregular/aumentado dificulta a medição endometrial — referenciar se hemorragia inexplicada.

🥚Volume ovárico

Medir as três dimensões do ovário (cm) em dois planos ortogonais. Fórmula do elipsoide.

Volume = 0,523 × C × L × A. Orientativo: pré-menopausa até ~10 mL; pós-menopausa < ~8 mL. > 10 mL entra nos critérios de ovário poliquístico (morfológico).

⬲Volume uterino

Volume = 0,523 × C × AP × T. Útero adulto normal ~30–120 mL, variável com a paridade.

📋Referências rápidas
MediçãoReferência orientativa
Endométrio — pós-menopausa c/ hemorragia≤ 4 mm exclui cancro (VPN elevado)
Endométrio — secretora (pré-menopausa)até ~14–16 mm (fisiológico)
Folículo / quisto funcional< 3 cm
Quisto simples — risco malignidade< 1% se < 10 cm
Massa ovárica — risco de torção↑ se ≥ 5 cm
Volume ovárico (poliquístico)> 10 mL
📚Fontes e referências
  • GUSIGlobal Ultrasound Institute. OB Essentials POCUS Pocket Guide. CC BY-NC 4.0. Técnica pélvica, útero antevertido/retrovertido, anexos, líquido de Douglas e colocação/verificação de DIU.
  • POCUS 101Dinh V et al. Gynecology/Pelvic Ultrasound Made Easy: Step-By-Step Guide. Técnica TA/TV, útero, endométrio, ovários e volume.
  • ACR/ACOGLimiar de espessura endometrial ≤ 4 mm para excluir cancro na hemorragia pós-menopausa (revisões e meta-análises, JACR 2024; Obstet Gynecol 2010).
  • SRU 2019Levine D et al. Simple Adnexal Cysts: SRU Consensus Conference Update. Radiology 2019;293. Limiares de reporte/seguimento de quistos simples.
  • SOGC 2020Guideline No. 404. Initial Investigation and Management of Benign Ovarian Masses. J Obstet Gynaecol Can 2020. Risco <1% se <10 cm; torção se ≥5 cm.
  • StatPearlsGynecology Infertility Assessment & Interpretation. NCBI Bookshelf. Volume ovárico (0,523×L×L×A), fases endometriais.
  • BornemannBornemann P (ed.). Ultrasound for Primary Care. Wolters Kluwer, 2021.

Ferramenta de referência clínica de apoio à decisão — não substitui o julgamento clínico, a formação supervisionada em ecografia, nem a ecografia ginecológica formal/consulta de ginecologia. Os limiares são orientativos e devem ser interpretados no contexto clínico. A ecografia transvaginal exige consentimento informado e acompanhante.