Interpretação de TC Cérebro e Coluna

Ferramenta de apoio à decisão clínica. As imagens são esquemáticas (ilustram a morfologia típica do achado) e não substituem a leitura do exame real nem o relatório do radiologista. A TC não substitui a RM na avaliação de muitas patologias do parênquima, da medula e dos discos. Interprete sempre no contexto clínico.

i Densidades na TC — a base da leitura

A TC mede a densidade dos tecidos em unidades de Hounsfield (UH). O essencial é distinguir o que está hiperdenso (branco) do que está hipodenso (escuro) em relação ao parênquima cerebral.

Ar
(−1000)
Gordura
(−100)
LCR
(0–15)
Parênquima
(20–40)
Sangue agudo
(50–90)
Osso/cálcio
(>200)
Regra prática na urgência

Na TC sem contraste, o papel principal é excluir hemorragia (muito sensível) e identificar efeito de massa, hidrocefalia ou grandes enfartes. O AVC isquémico pode ter TC normal nas primeiras horas — a clínica orienta.

i TC da coluna — o que avalia bem

A TC é superior à RM para o osso (fraturas, osteófitos, calcificações, alinhamento). Para disco, medula e raízes, a RM é o exame de escolha; a TC (ou a mielo-TC) usa-se quando a RM está contraindicada ou indisponível.

Concordância clínico-radiológica

As alterações degenerativas são muito frequentes em pessoas assintomáticas. Um achado só é relevante se corresponder ao nível e lado dos sintomas. A imagem não se trata isoladamente.

A Termos gerais de radiologia
TermoSignificado
HiperdensoMais branco que o parênquima (sangue agudo, cálcio, osso, contraste).
HipodensoMais escuro que o parênquima (edema, enfarte estabelecido, gordura, ar, quistos).
IsodensoDensidade semelhante ao tecido adjacente (pode tornar lesões difíceis de ver).
Efeito de massaDeslocamento/compressão de estruturas vizinhas por uma lesão expansiva.
Desvio da linha médiaDeslocamento das estruturas centrais; marcador de gravidade do efeito de massa.
Apagamento de sulcosPerda da definição dos sulcos corticais; sugere edema/efeito de massa.
Perda da diferenciação substância cinzenta-brancaSinal precoce de isquemia.
Realce (após contraste)Captação de contraste; sugere quebra da barreira hematoencefálica (tumor, infeção, inflamação).
Edema vasogénicoHipodensidade em "dedos de luva" na substância branca, à volta de lesões (tumor, abcesso).
HerniaçãoDeslocamento de tecido cerebral entre compartimentos (subfalcina, uncal, amigdalina) — emergência.
Intra-axial / Extra-axialLesão dentro do parênquima / fora dele (entre o cérebro e o crânio).
B Termos frequentes — cérebro
TermoSignificado
Leucoaraiose / doença de pequenos vasosHipodensidade da substância branca periventricular; alterações vasculares crónicas relacionadas com a idade/HTA. Sinónimos: "alterações da substância branca", "microangiopatia".
Enfarte lacunarPequeno enfarte profundo (<15 mm) por oclusão de pequeno vaso.
Atrofia cortico-subcorticalRedução do volume cerebral com alargamento de sulcos e ventrículos; frequentemente apropriada para a idade.
Sinal da ACM hiperdensaArtéria cerebral média muito branca = trombo agudo (AVC isquémico precoce).
Calcificações fisiológicasPineal, plexos coroideus, gânglios da base — habitualmente sem significado patológico.
Quisto aracnoideuColeção de LCR extra-axial, de bordos lisos; geralmente achado benigno.
C Termos frequentes — coluna
TermoSignificado
EspondiloseTermo genérico para alterações degenerativas da coluna (osteófitos, perda de altura discal).
Disco protruso (protrusão)Base da hérnia mais larga do que o material herniado. Anel fibroso intacto.
Disco extruso (extrusão)Material herniado mais largo do que a base; rotura do anel. Pode migrar.
Sequestro discalFragmento discal livre, sem continuidade com o disco de origem.
Bulging (abaulamento difuso)Extensão simétrica do disco para além do bordo vertebral (>25% da circunferência). Não é hérnia.
OsteófitoEsporão ósseo nas margens vertebrais; reação degenerativa.
Estenose do canalEstreitamento do canal raquidiano (central, recesso lateral, foraminal).
EspondilolisteseDeslizamento de um corpo vertebral sobre o adjacente (antero/retrolistese).
EspondilóliseDefeito/fratura da pars interarticularis.
Hipertrofia facetária / ligamento amareloEspessamento que contribui para estenose.
Nódulo de SchmorlHerniação do disco para dentro do corpo vertebral; geralmente benigno.
Fenómeno de vácuoAr dentro do disco degenerado; sinal de degenerescência (geralmente benigno).
Alterações de ModicAlterações dos pratos vertebrais (descritas em RM); tipo 1 mais associado a dor.
1 Leitura sistemática da TC cerebral
  • 1
    Sangue? — procurar hiperdensidades (hemorragia intra ou extra-axial, HSA nas cisternas).
  • 2
    Cisternas — abertas e simétricas? Apagamento sugere efeito de massa / herniação iminente.
  • 3
    Cérebro — simetria, diferenciação cinzenta-branca, hipodensidades (enfarte, edema, lesões).
  • 4
    Ventrículos — dimensão (hidrocefalia?), simetria, desvio da linha média.
  • 5
    Osso e couro cabeludo — fraturas, hematomas do escalpe (janela óssea).

Mnemónica útil: "Blood Can Be Very Bad" — Blood, Cisterns, Brain, Ventricles, Bone.

! Achados de emergência — cérebro
Ação imediata

Hemorragia intracraniana (qualquer tipo) · Hemorragia subaracnoideia (cefaleia em trovoada) · Efeito de massa com desvio da linha média ou apagamento de cisternas · Sinais de herniação · Grande enfarte estabelecido · Hidrocefalia aguda · Fratura craniana com afundamento.

2 Sinais de alarme da dor lombar (red flags) — quando imagiar

A lombalgia aguda inespecífica não requer imagem. Considerar TC/RM perante:
• Síndrome de cauda equina (anestesia em sela, retenção/incontinência, défice bilateral) — emergência cirúrgica
• Défice neurológico progressivo ou motor relevante
• Suspeita de infeção (febre, imunossupressão, UDIV) ou neoplasia (história de cancro, perda ponderal, dor noturna)
• Trauma significativo ou osteoporose com suspeita de fratura
• Dor sem melhoria após 4–6 semanas de tratamento conservador adequado

3 Princípio-chave da coluna

Achados degenerativos (bulging, protrusões, espondilose, alterações dos pratos) são muito comuns em assintomáticos e aumentam com a idade. Correlacionar sempre com a clínica: o nível, o lado e o tipo de défice devem corresponder à imagem antes de atribuir causalidade ou considerar cirurgia.

i TC vs RM — qual escolher
SituaçãoExame preferencial
Suspeita de hemorragia aguda / trauma cranianoTC sem contraste
AVC isquémico (fase aguda, decisão de trombólise)TC ± angio-TC / perfusão
Fratura vertebral / detalhe ósseoTC
Hérnia discal, compressão medular/radicularRM
Tumor, esclerose múltipla, lesões do parênquimaRM (com contraste)
Cauda equina (emergência)RM urgente (TC se RM indisponível)
R Referências