Rastreio AAA – Ecografia POCUS
📐Definição de AAA

O Aneurisma da Aorta Abdominal (AAA) é definido como uma dilatação localizada da aorta abdominal com diâmetro ≥ 3,0 cm — valor > 2 desvios-padrão acima do diâmetro médio normal (≈ 2,0 cm em adultos). Cerca de 85% dos AAA são infrarrenais e, na maioria dos casos, são assintomáticos até à rotura.

≈ 2,0 cm
Aorta normal
2,5–2,9 cm
Ectasia aórtica
≥ 3,0 cm
AAA (diagnóstico)
📊Diâmetros e Conduta Clínica
Diâmetro AP máximoClassificaçãoRisco de Rotura / anoConduta
< 3,0 cm✅ Normal / Ectasia~0%Alta tranquilizadora. Rastreio único suficiente se < 2,5 cm.
3,0 – 3,9 cm🟡 Pequeno< 1%Vigilância por ecografia a cada 3 anos. Controlo de FDR cardiovasculares.
4,0 – 4,9 cm🟠 Médio1–3%Ecografia anual (homens). Mulheres: a cada 6 meses acima de 4,0 cm.
4,5 – 5,4 cm🔶 Moderado3–10%Ecografia a cada 6 meses. Referência a Cirurgia Vascular se mulher ≥ 5,0 cm. Considera CTA.
≥ 5,5 cm (♂) / ≥ 5,0 cm (♀)🔴 Grande10–20%Referência urgente a Cirurgia Vascular. CTA para planeamento. Considerar EVAR ou cirurgia aberta.
Crescimento > 1 cm/ano ou > 0,5 cm em 6 meses🚨 Crescimento rápidoElevadoReferência urgente independentemente do diâmetro absoluto.
AAA sintomático / hemodinamicamente instável🚨 EMERGÊNCIAIminenteAtivação imediata de bloco operatório. Não realizar CTA se instável. Dois acessos venosos calibrosos.

Fontes: ESVS 2024, SVS Guidelines 2018, USPSTF 2019. A medição deve ser feita de parede externa a parede externa no plano anteroposterior.

🌿Ramos Viscerais — Diâmetros Normais e Aneurismas

Durante o rastreio da aorta visualizam-se frequentemente os ramos viscerais. A artéria mesentérica superior (AMS) é particularmente visível logo abaixo do tronco celíaco, paralela à aorta. Os aneurismas viscerais são raros mas potencialmente fatais.

VasoDiâmetro normalAneurisma / Conduta
A. Mesentérica Superior (AMS)3 – 7 mmEctasia se > 8–10 mm. Aneurisma da AMS (≥ 2× o diâmetro normal): risco elevado de rotura. SVS recomenda tratamento de todos os aneurismas da AMS independentemente do tamanho.
Tronco celíaco5 – 8 mmAneurisma se > 1,5–2 cm. Referência a Cirurgia Vascular se ≥ 2 cm ou sintomático.
Aneurisma visceral (geral)—Risco de rotura baixo se < 2,5 cm. Considerar tratamento se ≥ 2 cm, sintomático, ou em mulher em idade fértil / grávida.
Distância aorto-mesentérica2 – 5 mmAumenta na presença de AAA, adenopatias pré-aórticas ou massas retroperitoneais.

Fontes: Radiology Key (Ultrasound Evaluation of the Abdominal Aorta and Mesenteric Arteries, 2025); SVS Guidelines on Visceral Artery Aneurysms; literatura de casos (J Surg Case Rep 2022).

🔵Comparação Visual dos Diâmetros
Normal~2,0 cm Ectasia2,5–2,9 cm Pequeno3,0–3,9 cm Médio4,0–5,4 cm Grande 🚨≥ 5,5 cm
👤Critérios de Rastreio (ESVS 2024 · USPSTF)

✅ Indicação clara (Classe I)

  • Homens 65–75 anos + história tabágica (≥100 cigarros vida)
  • Homens > 75 anos com tabagismo e bom estado geral
  • Familiares de 1.º grau com AAA diagnosticado
  • Mulheres 65–75 anos com história de tabagismo significativa

⚠️ Considerar rastreio

  • Hipertensão arterial não controlada
  • Doença aterosclerótica difusa (coronária, periférica)
  • Aorta 2,5–2,9 cm: vigilância cada 5–10 anos
  • Mulheres > 65 anos com tabagismo atual ou recente

❌ Não indicado de rotina

  • Homens < 65 anos sem FDR
  • Mulheres sem história de tabagismo
  • Re-rastreio se aorta < 2,5 cm (negligenciável)
  • Expectativa de vida < 10 anos
📈Intervalos de Vigilância por Ecografia
DiâmetroHomensMulheresFonte
< 2,5 cmAlta — sem re-rastreioAlta — sem re-rastreioUSPSTF 2019
2,5 – 2,9 cmConsiderar vigilância a 5–10 anosConsiderar vigilância a 5–10 anosSVS 2018
3,0 – 3,9 cmA cada 3 anosA cada 3 anosSVS / ESVS
4,0 – 4,4 cmAnualA cada 6 mesesSVS / ESVS 2024
4,5 – 4,9 cmAnualA cada 6 meses → cirurgiaESVS 2024
5,0 – 5,4 cmA cada 6 meses + referência🔴 Referência urgente cirurgiaESVS 2024
≥ 5,5 cm (♂) / ≥ 5,0 cm (♀)🚨 REFERÊNCIA URGENTE — CIRURGIA VASCULAR / CTAESVS / SVS
⚙️Configuração do Equipamento
🔊 Sonda

Convexa (curvilinear) de baixa frequência: 2–5 MHz. Sonda linear se doente magro.

📏 Profundidade

Ajustar para visualizar os corpos vertebrais no fundo do écran (≈ 15–20 cm).

🛏️ Posição doente

Decúbito dorsal, em jejum se possível. Posição lateral (flanco) se obeso ou com muito gás intestinal.

🖥️ Preset

Abdómen / Aorta. Ativar harmónica tissular se disponível para melhorar contraste parede/lúmen.

🔢Protocolo Passo-a-Passo
  1. 1
    Ponto de partida — Plano transversal subxifoide

    Colocar a sonda transversalmente abaixo do apêndice xifoide, com o marcador para a direita do doente. Aplicar pressão firme e progressiva. Identificar os corpos vertebrais como estrutura hiperecogénica na profundidade.

  2. 2
    Identificar a aorta (aorta suprarenal)

    A aorta é a estrutura circular, pulsátil, de paredes espessas, à direita no ecrã. A VCI é oval, compressível, à esquerda no ecrã. Centralizar a aorta.

  3. 3
    Varredura descendente — ramos viscerais

    Deslizar caudalmente. Identificar: tronco celíaco ("sinal da gaivota"), artéria mesentérica superior (AMS — normal 3–7 mm) rodeada de tecido adiposo, e artérias renais (ao nível da veia renal esquerda que cruza anteriormente). Medir diâmetro a cada nível.

  4. 4
    Aorta infrarenal — principal zona de risco

    Continuar caudalmente até ao umbigo. Medir o diâmetro máximo antero-posterior (AP) — parede externa a parede externa. Esta é a medição mais importante e a mais reprodutível.

  5. 5
    Bifurcação ilíaca (ao nível do umbigo/L4)

    Identificar a bifurcação: a aorta divide-se nas artérias ilíacas comuns. Medir cada ilíaca se suspeita de ectasia/aneurisma ilíaco (normal < 1,5 cm).

  6. 6
    Plano longitudinal — confirmação

    Rodar a sonda 90° (marcador para cefálico). Visualizar o comprimento da aorta, confirmar dilatação e excluir dissecção (flap intimal). Medir também no plano longitudinal.

  7. 7
    Documentação

    Registar imagens com medições nos 3 níveis (proximal, médio, distal) em plano transversal + 1 longitudinal. Se AAA detetado: documentar extensão, relação com artérias renais, trombo mural e sinais de rotura (líquido peri-aórtico).

📐Como Medir Corretamente
Medição Correta: Parede Externa → Parede Externa Lúmen ← Trombo mural ✅ Medir aqui (externo-externo) ❌ Não medir só o lúmen Corpo vertebral

✅ Correto

  • Medir de parede externa a parede externa
  • Incluir sempre o trombo mural na medição
  • Plano perpendicular ao eixo aórtico
  • Medir o diâmetro AP — mais reprodutível

❌ Erros comuns

  • Medir apenas o lúmen (subestima o diâmetro real)
  • Plano oblíquo — sobrestima o diâmetro
  • Confundir trombo com parede
  • Não visualizar os corpos vertebrais (profundidade insuficiente)
🗺️Anatomia da Aorta Abdominal — Vista Esquemática
Diafragma (T12) Tronco celíaco (L1) ≈ 1 cm abaixo do diafragma A. Mesentérica Superior (L1) — 3–7 mm A. Renal Esq. A. Renal Dir. (L2) ↑ Suprarenal | Infrarenal ↓ (85% dos AAA) A. Mesentérica Inferior (L3) Bifurcação ilíaca (L4 ~ umbigo) VCI Coluna vertebral Umbigo (L4)
🧭Orientação das Imagens POCUS — Convenção

Com o marcador da sonda apontado para a direita do doente (convenção POCUS abdominal padrão): a Aorta aparece à direita do ecrã (esquerda anatómica do doente) e a VCI aparece à esquerda do ecrã (direita anatómica do doente). As imagens abaixo respeitam esta orientação.

🔬Vistas Ecográficas Chave — Imagens Simuladas

Esquemas baseados em imagens de referência (AMBOSS). Seguem a sequência de descida da aorta: tronco celíaco → AMS → infrarenal → bifurcação.

① Tronco Celíaco — "Seagull Sign"
Hepática comum + Esplénica

◀ Dir. doente Esq. doente ▶ Fígado Aorta Hep. comum Esplénica VCI 0 5 10 Transversal — Tronco Celíaco

O tronco celíaco ramifica em hepática comum e esplénica formando o "sinal da gaivota". Primeira referência ao descer da aorta proximal.

② A. Mesentérica Superior (AMS)
+ Veia renal esquerda

◀ Dir. doente Esq. doente ▶ Aorta Adiposo AMS 3–7 mm V. renal esq. VCI Transversal — AMS / V. renal esq.

A AMS é redonda, rodeada de tecido adiposo ecogénico, anterior à aorta. Normal 3–7 mm; ectasia >8–10 mm. A veia renal esq. cruza entre a AMS e a aorta.

③ Aorta Infrarenal — Transversal
Normal

◀ Dir. doente (VCI) Esq. doente (Ao) ▶ Vértebra (hiperecoica) sombra acústica VCI Ao 2,0 cm ✅ Infrarenal — Normal

Aorta circular pulsátil à direita; VCI oval e compressível à esquerda. A vértebra hiperecoica e a sua sombra acústica confirmam a profundidade.

④ AAA — Corte Transversal
Com trombo mural

◀ Dir. doente Esq. doente ▶ Vértebra 5,5 cm Trombo Lúmen anecoico central AAA + Trombo Mural

AAA com trombo mural (semilunar, ecogénico). Medir sempre parede externa a parede externa, incluindo o trombo.

⑤ Plano Longitudinal
Vista sagital

◀ Caudal Cefálico ▶ Coluna vertebral 6 cm AMS TC Longitudinal — AAA Fusiforme

Dilatação fusiforme em vista sagital. A AMS sai anteriormente e corre paralela à aorta — referência para localizar o segmento infrarenal.

⑥ Aorta vs VCI
Diferenciação

◀ Dir. doente Esq. doente ▶ VCI Ao ○ Compressível ○ Oval / aplana ○ Não pulsátil ○ Varia c/ resp. ○ Esq. no ecrã ● Pulsátil ● Não compress. ● Circular ● Paredes espessas ● Dir. no ecrã Diferenciação Aorta / VCI

VCI à esquerda do ecrã (oval, compressível, varia com a respiração). Aorta à direita (circular, pulsátil, paredes espessas).

🧮Classificador de AAA — Conduta Clínica

Insira o diâmetro máximo antero-posterior medido por ecografia (de parede externa a parede externa).

📊Risco de Rotura por Diâmetro
Diâmetro AP (cm) Risco de rotura/ano (%) <1%< 3,0 1%3,0-3,9 1-3%4,0-4,9 5-10%5,0-5,4 10-20%5,5-6,0 30-50%> 6,0 → Limiar cirúrgico (♂ 5,5 cm) 0%20%40%
⚠️Armadilhas Técnicas e Diagnósticas

🔴 Trombo mural oculto

O trombo mural pode ser hipoecogénico e confundido com lúmen. Medir apenas o lúmen subestima o diâmetro real. Medir SEMPRE parede externa a parede externa.

🔴 Plano oblíquo

Se a sonda não estiver perpendicular ao eixo da aorta, o diâmetro fica sobrestimado. Confirmar sempre em longitudinal e garantir corte transversal verdadeiro.

🟡 Gás intestinal / obesidade

Obstrui a visualização em 5–10% dos doentes. Tentar com pressão gradual, posição lateral, ou janela paravertebral. Harmónica tissular ajuda.

🟡 Confundir Aorta com VCI

Com marcador à direita: VCI é oval, compressível, à esquerda do ecrã. Aorta é circular, pulsátil, paredes espessas, à direita do ecrã.

🟡 AAA tortuoso

A aorta pode ser tortuosa. Seguir o eixo do vaso no plano longitudinal para obter o diâmetro máximo real sem sobrestimação por corte oblíquo.

🔶 Sinal de dissecção

Flap intimal: linha ecogénica móvel no interior do lúmen. Se suspeita de dissecção → CTA urgente. Não atrasar com eco adicional.

🔶 Líquido peri-aórtico

Hematoma retroperitoneal ou líquido livre peri-aórtico em contexto de dor lombar + hipotensão = rotura iminente. Ativação imediata do bloco operatório.

✅ Estudo inconclusivo

Se não é possível visualizar toda a aorta, reportar como "estudo inconclusivo" e referenciar para ecografia formal ou CTA. Nunca reportar como negativo.

📋Resumo Rápido — Checklist do Exame
📚Fontes e Referências
  • ESVS 2024European Society for Vascular Surgery. 2024 Clinical Practice Guidelines on the Management of Abdominal Aortoiliac Artery Aneurysms. Limiar de reparação ≥ 55 mm (♂) / ≥ 50 mm (♀).
  • USPSTF 2019US Preventive Services Task Force. Screening for Abdominal Aortic Aneurysm. Rastreio único com ecografia em homens 65–75 anos com história tabágica (recomendação B).
  • SVS 2018Society for Vascular Surgery. Practice guidelines on the care of patients with AAA. J Vasc Surg 2018;67(1):2-77.
  • RADIORadiology Key. Ultrasound Evaluation of the Abdominal Aorta and Mesenteric Arteries (2025). AMS normal 3–7 mm; distância aorto-mesentérica 2–5 mm.
  • POCUSRubano E et al. Systematic review: ED bedside ultrasonography for AAA. Sensibilidade 99%, especificidade 98%.
  • AMBOSSAMBOSS. How to: POCUS of the abdominal aorta and IVC. Esquemas de orientação e vistas de referência.

Ferramenta de referência clínica — não substitui julgamento clínico individual. Baseada em guidelines ESVS 2024, USPSTF e SVS 2018.