A ecografia abdominal POCUS responde a perguntas focadas e binárias à cabeceira (há líquido livre? cálculos na vesícula? hidronefrose? bexiga cheia?). Não substitui a ecografia formal nem o radiologista — complementa o exame clínico e acelera decisões.
💧 Líquido livre (FAST)
Trauma, dor abdominal, hipotensão. Pesquisa de líquido nos recessos hepatorrenal, esplenorrenal e pélvico.
🟡 Vesícula & vias biliares
Dor no hipocôndrio direito: litíase, Murphy ecográfico, espessamento parietal, dilatação do colédoco.
🫘 Rim & bexiga
Cólica renal/lombalgia: hidronefrose. Retenção urinária: volume vesical e resíduo pós-miccional.
🩸 Aorta abdominal
Rastreio/suspeita de aneurisma (ver ferramenta dedicada ao AAA neste projeto).
| Janela | O que procurar |
|---|---|
| A — HCD (hepatorrenal) | O recesso hepatorrenal (bolsa de Morrison), entre o bordo caudal do fígado e o rim direito, é o ponto mais sensível para líquido livre no doente em decúbito. Pesquisar também acima do fígado (subdiafragmático). |
| B — HCE (esplenorrenal) | Sonda mais posterior e cefálica ("nós dos dedos na marquesa"). Líquido entre baço e rim e, sobretudo, no espaço subfrénico (baço–diafragma), onde se acumula primeiro à esquerda. |
| C — Pélvica | Recesso retovesical / retouterino (fundo de saco de Douglas). Cortes transversal e sagital. Não confundir a bexiga cheia com líquido livre. |
| D — Subxifoideia | Derrame pericárdico entre fígado e ventrículo direito. Sonda inclinada sob o apêndice xifoide, marcador para a direita do doente. |
| E — Pulmão | Linha pleural hiperecóica; sliding pulmonar ("formigas a marchar"). Ausência sugere pneumotórax. Modo-M: praia (normal) vs código de barras (pneumotórax). |
| F — Flancos | Acima do diafragma para hemotórax. Sinal da coluna (spine sign): a coluna vista acima do diafragma indica derrame (perda do artefacto-espelho do fígado). |
Doente instável + FAST positivo
Líquido livre num doente hemodinamicamente instável → ativação cirúrgica / bloco operatório. Não atrasar com imagem adicional.
Doente estável + FAST positivo
TC para caracterização e gradação da lesão.
FAST negativo
Não exclui lesão. Se persiste a suspeita: repetir FAST seriado, observar e/ou TC. Um FAST não conclusivo (não se visualizam todas as janelas) reporta-se como inconclusivo, nunca como negativo.
Limitações
O FAST deteta líquido livre, não a sua natureza. Pode haver falsos negativos com volumes < 200–500 mL, hemoperitoneu coagulado ou líquido retroperitoneal. Sensibilidade depende do operador e do volume.
A ecografia é o exame inicial de eleição na dor do hipocôndrio direito, com elevada sensibilidade e especificidade para litíase e colecistite. A litíase vesicular está presente em ~10% da população, sendo apenas ~¼ sintomática (cólica biliar pós-prandial após refeição gorda).
| Achado | Características |
|---|---|
| Vesícula normal | Estrutura anecóica, parede fina, sem cálculos, sem espessamento, sem líquido pericolecístico. |
| Litíase (cálculos) | Focos hiperecóicos, móveis com a posição, com sombra acústica posterior. Procurar no fundo e no colo; os sintomáticos alojam-se frequentemente no colo. |
| Sinal WES (wall–echo–shadow) | Vesícula cheia de cálculos: vê-se parte da parede + grande sombra, sem espaço para bílis. |
| Pólipo | Pequena saliência da parede, SEM sombra e não móvel (distingue-se do cálculo). |
| Murphy ecográfico | Dor máxima reproduzida pela pressão da sonda sobre o fundo da vesícula. Bom VPN (~95%). Doente em decúbito lateral esquerdo. |
| Espessamento parietal | Anormal se > 3–4 mm. Medir a parede anterior (junto ao fígado), em transversal. Causas não biliares: ICC, ascite, hepatite, VIH, pancreatite, vesícula pós-prandial/contraída. |
| Líquido pericolecístico | Cunhas anecóicas fora da parede; melhor visto no lado anterior (lado do fígado). |
| Colédoco (CBD) | Corre anterior à veia porta; sem fluxo a Doppler cor. Normal < 6 mm (< 70 anos); +1 mm por década depois dos 70 (regra ~1/10 da idade); até 10 mm pós-colecistectomia. Dica: se o CBD < 50% do diâmetro da veia porta, é pouco provável patologia. |
🚩 Suspeita de colecistite aguda
Combinação de cálculos + parede > 3–4 mm + líquido pericolecístico + Murphy ecográfico positivo. Sinais de gravidade: comprimento > 10 cm e/ou diâmetro > 4 cm, cálculo encravado no colo, gás na parede.
💡 Coledocolitíase
CBD dilatado sugere obstrução distal. Correlacionar com clínica e provas hepáticas (colestase). Referenciar para imagem/avaliação adicional.
Avaliar hidronefrose é uma das aplicações POCUS mais frequentes e úteis na cólica renal e lombalgia: sensível, específica e fácil de interpretar à cabeceira.
- Rim D: abaixo do fígado; inclinar a sonda para a marquesa (retroperitoneal).
- Rim E: abaixo do baço, mais posterior e cefálico ("nós dos dedos na marquesa").
- Varrer em fim de inspiração e mais inferiormente para evitar sombra das costelas.
- Identificar cálculos pela sombra acústica.
| Grau | Achado ecográfico |
|---|---|
| Normal | Seio renal central hiperecóico, sem áreas anecóicas. |
| Ligeira | Dilatação isolada da pelve renal (pieliectasia). |
| Moderada | Dilatação da pelve e dos cálices major. |
| Grave | Dilatação dos cálices major/minor; obliteração e adelgaçamento do córtex renal. |
✨ Sinal de twinkle
A Doppler cor, cintilação rápida azul/vermelha atrás de um cálculo — ajuda a confirmar litíase, incluindo na junção ureterovesical (JUV).
💧 Jacto ureteral
Na bexiga, jactos de urina da JUV a Doppler cor confirmam permeabilidade ureteral; a sua ausência unilateral sugere obstrução completa.
📐 Correlação clínica
Hidronefrose ligeira → menor probabilidade de cálculo grande. Moderada a grave → maior probabilidade de cálculo > 5 mm.
⚠️ Não é diagnóstico de cálculo
A hidronefrose pode dever-se a outras obstruções (massas, anomalias). Pode estar ausente numa fase precoce — hidratar e repetir.
Colocar a sonda na linha média, acima da sínfise púbica, marcador para a cabeça. Medir nos planos sagital e transversal (de parede interna a parede interna). Útil para volume vesical, retenção urinária, posicionamento de algália, litíase e massas vesicais.
Volume vesical
Fórmula do elipsoide: Volume (mL) ≈ 0,52 × Largura × Altura × Profundidade (cm). Estimativa simplificada à cabeceira: L × A × P × 0,75. Resíduo pós-miccional elevado (orientativo > 200 mL) sugere retenção/esvaziamento incompleto. Use a calculadora no separador seguinte.
Sonda convexa, em decúbito dorsal, janelas subcostal e intercostal direitas; inspiração profunda sustida traz o fígado para baixo da grelha costal. Comparar sempre a ecogenicidade do fígado com o córtex do rim direito na mesma imagem.
Graus em modo-B
Ligeira: ligeiro aumento de ecogenicidade. Moderada: má visualização das paredes dos vasos e do diafragma. Grave: diafragma e porção posterior mal/ não visualizados, atenuação marcada.
Limitações
A ecografia em modo-B não distingue esteatose de fibrose e é pouco sensível abaixo de ~20% de gordura. Correlacionar com clínica/analítica e considerar elastografia.
Janela subxifoideia, eixo longo; medir o diâmetro 1–2 cm caudal à confluência das veias hepáticas / junção com a aurícula direita, em modo-B ou modo-M. Avaliar a variação com a respiração no doente em respiração espontânea.
| Diâmetro VCI | Colapso inspiratório | Interpretação (respiração espontânea) |
|---|---|---|
| ≤ 2,1 cm | > 50% | PAD baixa/normal ~3 mmHg (0–5). VCI < 1,5 cm com colapso quase total → hipovolemia / provável resposta a fluidos. |
| Intermédio | Intermédio | Intermédia ~8 mmHg (5–10). |
| > 2,1 cm | < 50% | PAD elevada ~15 mmHg (10–20). VCI > 2,5 cm pletórica, sem variação → congestão venosa. |
Índice de colapsabilidade = (diâmetro máx − mín) / máx × 100. PAD = pressão na aurícula direita.
Atletas
Podem ter VCI larga (> 2,5 cm) com bom colapso — reserva venosa fisiológica, não congestão.
Ventilação por pressão positiva
Inverte a dinâmica respiratória: a VCI distende na inspiração. As regras acima aplicam-se à respiração espontânea.
Pressão intra-abdominal
Obesidade, distensão, gravidez e hipertensão intra-abdominal alteram o calibre e o colapso da VCI.
Sempre em conjunto
A VCI é uma peça do contexto (pulmão, coração, clínica). Um único valor não decide a reposição de fluidos.
Medir as três dimensões na bexiga (cm): largura e altura no corte transversal, profundidade no corte sagital, de parede interna a parede interna.
Fórmula do elipsoide: V = 0,52 × L × A × P. Valores orientativos; o esvaziamento incompleto/retenção é um juízo clínico.
Estima o limite superior do normal do diâmetro do colédoco em função da idade e do antecedente de colecistectomia.
Regra: ≤ 6 mm até aos 70 anos; +1 mm por década adicional (~1/10 da idade); até ~10 mm após colecistectomia. Confirmar sempre com a clínica e provas hepáticas.
| Estrutura | Normal | Sugere patologia |
|---|---|---|
| Parede da vesícula | ≤ 3 mm | > 3–4 mm |
| Colédoco (< 70a) | ≤ 6 mm | > 6 mm (ajustar à idade) |
| Comprimento da vesícula | < 10 cm | > 10 cm |
| Diâmetro da vesícula | < 4 cm | > 4 cm |
| Resíduo pós-miccional | Baixo | > 200 mL (orientativo) |
| Aorta abdominal | < 3 cm | ≥ 3 cm (aneurisma — ver ferramenta AAA) |
FAST — bexiga cheia
Não confundir a bexiga cheia (anecóica, contornos regulares) com líquido livre na janela pélvica.
FAST — gordura properitoneal
A gordura pode simular líquido; o líquido livre tem contornos angulares e segue os recessos.
Vesícula vs ansa intestinal
Uma ansa pode imitar a vesícula. Confirmar com o sinal de exclamação (vesícula + veia porta).
Parede vesicular falsa
Vesícula contraída/pós-prandial parece "espessada". Avaliar em jejum antes de concluir.
Hidronefrose — vasos renais
Usar Doppler cor para distinguir vasos do seio renal de hidronefrose ligeira.
Hidronefrose — falsos amigos
Não confundir com quistos renais, pirâmides renais proeminentes ou densificação perirrenal.
Hidronefrose ausente ≠ sem cálculo
Numa fase precoce pode não haver dilatação. Hidratar, repetir e usar a clínica.
Sombra das costelas
Varrer em fim de inspiração e mais inferiormente; deslizar entre os espaços intercostais.
Aorta / dissecção
Flap intimal móvel ou líquido peri-aórtico com dor + hipotensão → emergência. Não atrasar com eco adicional (angio-TC urgente).
Exame inconclusivo
Se não visualiza toda a estrutura, reportar como "inconclusivo" e referenciar para eco formal/TC. Nunca reportar como negativo.
A POCUS é uma extensão do exame físico, dirigida a perguntas binárias e sempre interpretada no contexto clínico. Documente as imagens, conheça os seus limites e referencie para ecografia formal sempre que o achado for relevante, duvidoso ou fora do âmbito da pergunta inicial. A competência depende de formação supervisionada e prática deliberada.
- GUSI 2024Global Ultrasound Institute. GUSI POCUS Pocket Guide (FAST, Renal, Gallbladder). CC BY-NC 4.0. Técnica, janelas, sinais e graduação.
- POCUS 101Dinh V et al. Abdominal, Renal & Bladder Ultrasound Made Easy — Step-by-Step Guides. Graduação de hidronefrose, volume vesical, dica CBD/veia porta.
- emDocsUsing Point-of-Care Ultrasound to Identify the Gallbladder. 2024. Parede ≤ 3–4 mm (anterior); CBD por idade (+1 mm/década > 70; até 10 mm pós-colecistectomia).
- DiagnosticsDumbrava BD, Bass GA et al. The Accuracy of POCUS in Acute Gallbladder Disease. Diagnostics (Basel) 2023;13. Limiares: comprimento > 10 cm, diâmetro > 4 cm.
- ACEPACEP SonoGuide. Renal Ultrasound. Fórmula de volume vesical (0,52 × D × L × A); correlação hidronefrose–dimensão do cálculo.
- POCUS.orgPOCUS Resources. Role of POCUS in Diagnosing Gallstones. Medição da parede anterior; litíase vs pólipo.
- BornemannBornemann P (ed.). Ultrasound for Primary Care. Wolters Kluwer, 2021. Aplicações de ecografia abdominal nos cuidados primários.
Ferramenta de referência clínica de apoio à decisão — não substitui o julgamento clínico individual, a formação supervisionada em ecografia, nem a ecografia formal/radiologista. Baseada em GUSI POCUS Pocket Guide, POCUS 101 e literatura associada. Os limiares são orientativos e devem ser interpretados no contexto clínico.