Ecografia Pulmonar POCUS — Guia de Referência
🎛️Sonda e técnica

A ecografia pulmonar baseia-se na leitura de artefactos gerados na interface pleura–ar. Não se "vê" o pulmão arejado: interpretam-se linhas e movimentos. Perguntas focadas: há deslizamento? linhas A ou B? consolidação? derrame?

Sonda
Convexa ou sectorial para visão global e planos profundos (derrame, consolidação); linear (alta frequência) para detalhe da linha pleural e do deslizamento.
Orientação
Marcador para a cabeça, corte longitudinal perpendicular às costelas — obtém-se o sinal do morcego (costelas + linha pleural).
Preset / profundidade
Foco ao nível da linha pleural para avaliar deslizamento e linhas B. Desligar filtros de harmónica/compostos que suavizam artefactos, se disponível.
Posição
Doente em decúbito dorsal ou semi-sentado. Os pontos anteriores avaliam-se em decúbito; o ponto PLAPS (posterolateral) requer acesso ao flanco/dorso.
🧍Zonas e pontos de avaliação
1 4 2 5 3 6 superior médio PLAPS
Pontos 1–3 (hemitórax direito) e 4–6 (esquerdo). Vista anterior — a direita do doente está à esquerda da imagem. À esquerda avalia-se mais lateral/posterior pela sobreposição cardíaca.
Superior
Linha médio-clavicular, entre o 2.º e o 4.º arco costal.
Médio
Linha axilar anterior, ao nível do 5.º–6.º arco costal (campo pulmonar). À esquerda, ponto mais lateral e posterior pela localização cardíaca.
Inferior (PLAPS)
Linha axilar posterior, ao nível do 6.º–8.º arco costal — ponto PLAPS (síndrome alveolar/pleural posterolateral), o mais sensível para derrame e consolidação basal.
🦇A janela fundamental — sinal do morcego
costela costela sombra sombra linha pleural linha A (reverberação) 🦇 as duas costelas = asas · a pleura = dorso
O sinal do morcego (duas costelas com sombra + linha pleural entre elas) identifica com segurança a pleura em qualquer circunstância. É o ponto de partida de toda a avaliação.
🦇Os 10 sinais de Lichtenstein

Estes dez sinais permitem percorrer todo o espectro, do pulmão normal à patologia grave. Dominá-los é a base do protocolo BLUE. Cada sinal está representado esquematicamente abaixo.

1
Sinal do Morcego
Bat sign
pleura

Costelas (asas) + linha pleural (dorso) identificam a pleura em qualquer local.

Referência anatómica
2
Deslizamento Pleural
Lung sliding
movimento respiratório"formigas a marchar"

Deslize horizontal sincronizado com a respiração: os folhetos pleurais estão justapostos e a zona está ventilada.

Pulmão ventilado
3
Linhas A
A-lines
pleura

Artefactos horizontais, paralelos e equidistantes da linha pleural (reverberação no ar). Indicam pulmão arejado — normal ou pneumotórax.

Ar (normal / PTX)
4
Sinal do Quadrilátero
Quad sign
linha pleuralDERRAMElinha do pulmão

Área anecóica delimitada entre a linha pleural e a linha do pulmão (e as sombras costais). Sinal básico de derrame pleural.

Derrame pleural
5
Sinal Sinusoidal
Sinusoid sign · modo M
pleuralinha do pulmão aproxima-se na inspiração

No modo-M, a distância interpleural varia com a respiração. Indica líquido de baixa viscosidade e confirma o derrame.

Derrame pleural
6
Sinal do Fractal
Shred sign
consolidaçãobordo profundo irregular ("farrapos")

Consolidação não translobar com bordo profundo irregular. Confirma consolidação (ar entre alvéolos preenchidos).

Consolidação
7
Sinal de Tecido
Tissue-like sign
"hepatização"

Pulmão com aspeto de órgão sólido (semelhante ao fígado/baço). Indica consolidação translobar (pneumonia extensa, atelectasia).

Consolidação
8
Foguetes Pulmonares
Lung rockets · Linhas B
verticais, até ao fundo, apagam linhas A

Três ou mais linhas verticais hiperecóicas que apagam as linhas A e acompanham o deslizamento. Sinal de síndrome intersticial (edema, inflamação, fibrose).

Síndrome intersticial
9
Sinal da Estratosfera
Stratosphere / barcode · modo M
só linhas horizontais (código de barras)

No modo-M, apenas linhas horizontais contínuas (sem o padrão "areia"). Indica ausência de deslizamento/ventilação — pneumotórax ou atelectasia.

Ausência de deslize
10
Ponto Pulmonar
Lung point · modo M
praiaestratosferaponto de transição

Ponto exato onde alterna a ausência e a presença de deslizamento. É patognomónico de pneumotórax (100% específico; sensibilidade ~66%; ausente no colapso total).

Pneumotórax

➕ Dois sinais adicionais

Lung pulse (pulsação da pleura transmitida pelo coração, sem deslize) e broncograma aéreo dinâmico (pontos hiperecóicos móveis com a respiração dentro da consolidação) ajudam a distinguir atelectasia (lung pulse, broncograma estático) de pneumonia (broncograma dinâmico).

🫁Avaliação da pleura

Com a sonda perpendicular às costelas, identificar a linha pleural (sinal do morcego) e observar o deslizamento. A partir daí, procurar linhas A (ar) e caracterizar o modo-M.

✔️ Deslizamento presente

Exclui pneumotórax naquele ponto. Com linhas A → pulmão arejado normal (ou obstrutivo). O deslize é o achado mais tranquilizador.

⚠️ Deslizamento ausente

Não é específico de pneumotórax: também em derrame, consolidação, SDRA, fibrose, aderências, atelectasia, intubação seletiva e paralisia frénica. Confirmar com modo-M e procurar o ponto pulmonar.

📊Modo-M: praia vs estratosfera
"mar" (ondas) "areia" (praia) SINAL DA PRAIA — normal ESTRATOSFERA — sem deslize
Modo-M sobre a linha pleural. Praia: camadas imóveis geram ondas horizontais; o movimento profundo gera o padrão granular ("areia"). Estratosfera/código de barras: só linhas horizontais → ausência de deslizamento.
🎯Diagnóstico de pneumotórax
1

Ausência de deslizamento pleural

Primeiro alerta, mas inespecífico. Procurar também ausência de linhas B (a sua presença exclui pneumotórax no local).

2

Linhas A + ausência de deslize (perfil A')

Padrão compatível, mas ainda não confirmatório.

3

Confirmar com modo-M

Sinal da estratosfera (código de barras) substitui o sinal da praia.

4

Procurar o ponto pulmonar

Patognomónico (100% específico). Quanto mais lateral/posterior, maior o pneumotórax. Ausente no colapso pulmonar total.

💡 A presença de qualquer um exclui pneumotórax

Deslizamento pleural, linhas B, ou lung pulse — a presença de qualquer destes no ponto examinado exclui pneumotórax nesse local.

💧Derrame pleural

Avaliado sobretudo no ponto PLAPS (linha axilar posterior, base). A ecografia é mais sensível que a radiografia para pequenos derrames e permite guiar a toracocentese.

SinalDescrição
Quadrilátero
(Quad sign)
Área anecóica delimitada por linha pleural, linha do pulmão e sombras costais. Sinal estático básico de derrame.
Sinusoidal
(modo-M)
A linha do pulmão aproxima-se da pleura na inspiração, em padrão sinusoidal. Confirma líquido de baixa viscosidade.
Água-viva
(Jellyfish)
Pulmão colapsado a "flutuar" e ondular dentro do derrame volumoso, como uma alforreca.
Coluna
(Spine sign)
Corpos vertebrais visíveis acima do diafragma (o líquido conduz o som). Normalmente o pulmão arejado apaga a coluna acima do diafragma.
🪼Sinal da água-viva & sinal da coluna
derrame (anecóico) pulmão ÁGUA-VIVA diafragma fígado derrame COLUNA (spine sign)
Esquerda: o pulmão colapsado ondula dentro do derrame (água-viva). Direita: a coluna vertebral torna-se visível acima do diafragma porque o líquido conduz o som — em condições normais o pulmão arejado apagaria essa imagem.
📐Estimativa de volume — índice pleural BLUE

Medindo a distância interpleural máxima no ponto PLAPS (em expiração), pode estimar-se grosseiramente o volume:

Distância interpleuralVolume aproximado
~3 mm15–30 mL
~1 cm75–150 mL
~2 cm300–600 mL

Toracocentese guiada

A ecografia identifica a maior loca, a distância à pleura e o diafragma, reduzindo complicações. Distinguir derrame simples (anecóico) de complicado/empiema (septos, ecos internos, loculação).

🌫️Do ar à consolidação — A, B, C
Linhas A ar / normal Linhas B síndrome intersticial consolidação Linhas C consolidação
Espectro de aeração: linhas A (ar) → linhas B (líquido/espessamento intersticial) → consolidação (perda total de ar, aspeto de tecido).
🚀Linhas B — síndrome intersticial

Linhas verticais hiperecóicas que partem da pleura, chegam ao fundo do ecrã, apagam as linhas A e movem-se com o deslizamento.

Critério

≥ 3 linhas B num único campo intercostal definem um campo positivo (lung rockets).

Espaçamento (semiquantitativo)

Linhas B espaçadas ~7 mm (B7) ≈ espessamento dos septos (edema intersticial); espaçadas ~3 mm ou coalescentes (B3) ≈ edema alveolar/vidro despolido.

Distribuição importa

Bilateral e difusa → edema pulmonar cardiogénico, SDRA. Focal → pneumonia, contusão, enfarte.

Excluem pneumotórax

A presença de linhas B exclui pneumotórax naquele ponto (pleura visceral em contacto).

🫀Consolidação — fractal vs tecido
AchadoDescrição & significado
Sinal do Fractal
(Shred sign)
Consolidação não translobar com bordo profundo irregular ("farrapos"). Confirma consolidação parcial.
Sinal de Tecido
(Tissue-like)
"Hepatização": pulmão com aspeto de fígado/baço. Consolidação translobar extensa (pneumonia grave, atelectasia).
Broncograma aéreo
dinâmico
Pontos hiperecóicos que se movem com a respiração dentro da consolidação → favorece pneumonia.
Lung pulse +
broncograma estático
Sem deslize, pulsação transmitida e broncograma imóvel → favorece atelectasia (ex.: obstrução, intubação seletiva).

💡 Contexto do médico de família

Linhas B focais + consolidação subpleural com broncograma dinâmico apoiam pneumonia à cabeceira. Linhas B bilaterais difusas com derrames sugerem congestão. Integrar sempre com clínica, sinais vitais e restante exame.

🔵Protocolo BLUE — dispneia aguda

Bedside Lung Ultrasound in Emergency (Lichtenstein). Protocolo rápido (< 3 min) que combina o deslizamento, as linhas A/B, a consolidação, o ponto PLAPS e a análise venosa para orientar o diagnóstico da insuficiência respiratória aguda.

PerfilAchadosSugere
ALinhas A + deslizamento (anterior)DPOC / asma; TEP (se TVP); pneumonia posterior
BLinhas B bilaterais + deslizamento (foguetes anteriores)Edema pulmonar cardiogénico
A/BLinhas A de um lado, linhas B do outroPneumonia
B′Linhas B + deslizamento abolidoPneumonia
CConsolidação anteriorPneumonia
A′Linhas A + deslizamento abolido → ponto pulmonarPneumotórax
PLAPSPerfil A, sem TVP, com síndrome alveolar/pleural posterolateralPneumonia
Nu (nude)Perfil A, sem TVP, sem PLAPSDPOC / asma
🧭Fluxo de decisão
Há deslizamento pleural anterior?
▼
Presente + linhas B (perfil B) → edema pulmonar (congestão).
Presente + linhas A (perfil A) → analisar veias dos membros: TVP → TEP; sem TVP → ver PLAPS: com PLAPS → pneumonia; sem PLAPS → DPOC/asma.
Abolido + linhas B (perfil B′) ou A/B ou C → pneumonia.
Abolido + linhas A (perfil A′) → procurar ponto pulmonar: presente → pneumotórax confirmado; ausente → pneumotórax possível, ponderar diagnósticos diferenciais e exames complementares.
📈Acurácia (Lichtenstein, CHEST 2008)
Mecanismo / perfilSens.Espec.VPPVPN
Edema pulmonar — perfil B97%95%87%99%
DPOC/asma — perfil nu (A, sem TVP, sem PLAPS)89%97%93%95%
TEP — perfil A com TVP81%99%94%98%
Pneumotórax — perfil A′ (com ponto pulmonar)88%100%100%99%
Pneumonia — os quatro perfis89%94%88%95%

VPP = valor preditivo positivo; VPN = valor preditivo negativo. PLAPS = síndrome alveolar e/ou pleural posterolateral. Adaptado de Lichtenstein & Mezière, CHEST 2008.

📚Fontes e referências
  • Curso USFHenriques M. Curso POCUS — Pneumologia: o 5.º pilar do exame objetivo. Junho 2026. Material de formação (anatomia, os 10 sinais, protocolo BLUE).
  • CHEST 2008Lichtenstein DA, Mezière GA. Relevance of lung ultrasound in the diagnosis of acute respiratory failure: the BLUE protocol. Chest 2008;134(1):117-125. Perfis e acurácia.
  • Ann Int CareLichtenstein DA. Lung ultrasound in the critically ill. Ann Intensive Care 2014;4:1. Os 10 sinais; lung pulse e broncograma dinâmico.
  • GUSIGlobal Ultrasound Institute. POCUS Pocket Guide — Pulmonary. CC BY-NC 4.0. Sinal do morcego, linhas A/B, modo-M.
  • ReviewLung ultrasound for evaluation of dyspnea: a pictorial review. Acute Crit Care 2022. Perfis BLUE, ponto pulmonar (100% específico, Se ~66%), índice pleural BLUE.
  • BornemannBornemann P (ed.). Ultrasound for Primary Care. Wolters Kluwer, 2021. Aplicação pulmonar nos cuidados primários.

Ferramenta de referência clínica de apoio à decisão — não substitui o julgamento clínico individual, a formação supervisionada em ecografia, nem a imagem formal quando indicada. Os sinais e limiares são orientativos e devem ser interpretados no contexto clínico e integrados com o restante exame objetivo.